Mitos em saúde mental pela Drª Lília Monteiro

Os problemas de saúde mental são incomuns.

Infelizmente são mais comuns do que o esperado. A verdade é que 1 em cada 5 portugueses têm pelo menos 1 doença mental diagnosticável ao longo da sua vida. Sabemos hoje que a depressão é a principal causa psiquiátrica de doença crónica e é a terceira causa de perda de “anos de vida produtivos” (Daly disability-adjusted life years), encontrando-se em primeiro lugar a doença cardiovascular e em segundo lugar o cancro.

Os problemas de saúde mental são causados pela própria pessoa.

A doença mental tem uma variedade de causas, assim como as outras doenças:  os genes (predisposição familiar), a biologia,  a historia de vida da pessoa, o ambiente social e cultural em que se vive , todos contribuem para o surgimento da doença. Uma pessoa tem tanta culpa de ter perturbação de ansiedade (por exemplo) como de ter asma! As doenças já não estão divididas em “doenças do corpo” e “doenças da cabeça” – sabe-se hoje em dia que esta separação é artificial, e que na verdade tanto a parte física como a parte psicológica de um indivíduo interagem mutuamente e contribuem para a manifestação do sofrimento – assim, a saúde do corpo é importante para melhorar os sintomas emocionais, assim como a saúde da mente é fundamental para melhorar os sintomas mais físicos.

Apesar de a pessoa não ser culpada pela sua doença, é ela o principal factor decisor na recuperação, é responsável pelo envolvimento no tratamento, consoante a sua capacidade.

Quem sofre de depressão é porque não tem com o que se ocupar.

Frequentemente as doenças de humor surgem após longos períodos de vivências traumáticas (violência, graves dificuldades financeiras, doenças próprias ou dos seus familiares, perdas de pessoas significativas), numa altura em que a pessoa deixa de estar permanentemente em luta e alerta com os seus problemas e tem a oportunidade de olhar para si própria e sentir coisas que não teve a oportunidade de sentir antes. Isto cria por vezes o preconceito de assumir que as pessoas que sofrem de doenças mentais, nomeadamente de depressão, estão “desocupadas” – na verdade, o emergir dos sintomas mentais nestas fases de aparente calma, só vem revelar o que anteriormente, por várias razões, não pôde ser sentido.

Os problemas de saúde mental só se tratam com medicamentos.

Há diversas formas de melhorar o estado de doença mental – algumas mais centrais outras complementares. Cada indivíduo utilizará os seus próprios recursos internos e externos, de acordo com a sua personalidade e as suas preferências. Os passos a ser dados podem passar pela alteração do estilo de vida, o recurso à rede de amigos e familiares, o exercício físico, a melhoria da alimentação, a meditação, a psicoterapia, terapia ocupacional, a reabilitação e em alguns casos também o recurso a medicamentos específicos.

As  famílias de pessoas que sofrem de doença mental têm um papel secundário no seu tratamento.

As famílias são geralmente (e ainda bem!) os principais cuidadores e quem melhor conhece o doente. Sabemos desde há muito tempo que os doentes sem apoio familiar têm pior prognóstico das suas doenças. Por estas razões a intervenção nas famílias é fundamental e nesta área existem várias possibilidades – desde o envolver da família na consulta, trocando informações, opiniões e expectativas, até intervenções mais estruturadas para melhorar a dinâmica de funcionamento da família, como é o caso da Terapia Familiar.

Não existe cura para os problemas de saúde mental.

A maior parte das doenças mentais são episódicas, surgem e resolvem-se após tratamento. Algumas podem mais tarde voltar a surgir. Dada a influência genética e biológica na causalidade das doenças (de todas as doenças) é compreensível que alguém com predisposição a desenvolver determinado quadro clínico, possa mais tarde na sua vida ter recorrência do mesmo quadro, mas isso nem sempre acontece. Todas as doenças mentais têm varias opções de tratamento, algumas não tem actualmente cura definitiva (ex: esquizofrenia). Muitas doenças evoluem por surtos e remissões e as pessoas podem passar a maior parte do tempo das suas vidas sem sintomas, tomando medicamentos ou fazendo terapia para prevenir as recaídas. A investigação continua a tentar encontrar a causa e o tratamento de varias perturbações, sempre com vista à melhoria da qualidade de vida do doente e ao ganho de autonomia. A cura começa sempre no reconhecer do problema e da necessidade de ajuda.

 

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