“A Abelha Rainha” pela Drª Ana Sevinate

A Abelha Rainha

Adorna-se com um manto de riscas ténues. Ergue-se em trono de favo, onde permanece quase imóvel. Tem tempo. Tempo real. Quase imortal. Absolutamente intocável. Em geleia. Conserva-se em densidade âmbar e transparente. Tornando possível o movimento compassado. Incontestável. Ganho em cada gesto. Ganho em cada zumbido. Refletido. 

Mínimo e imenso. Quase doce. Absolutamente firme.   

O néctar da deusa fê-la a matriarca. Para estar ao serviço da terra. E o seu sacrifício é néctar do mundo. Oferenda. É preciso ter coração de rainha. 

É preciso entender. E só outra como ela entenderá. Só outra como ela entenderá, na pele e nas asas. Da abelha. E no coração da rainha. 

O que a nutriu fê-la governante. Para estar ao serviço da terra. Poder invisível, que a fez mãe da nação. Poder maior do que ela, que não a fez mulher de alguém. 

E é assim que da geleia que é real, se traça o caminho. E é assim que do caminho traçado se nutre a vida de todos. Com mel. Caminho que agarra e segue em forma de remoinho açucarado. 

Circulo da vida, circulo da humanidade. Da abelha. Da rainha.

Abelha rainha, tu que habitas em cada um de nós, por favor, não desistas. Nem de ti. Nem de ninguém. Porque sem ti, deixaremos de saber o que é o bem comum. Porque sem ti, deixaremos de compreender o que é a força maior. 

Vida em enxame. Dedicação. Subsistência. O que nos agrega e o que nos cola. Sustentabilidade. 

Abelha rainha, tu que habitas na esperança do nosso amanhã, por favor, não desistas. Nem de ti. Nem de nós. Porque sem ti, deixaremos de nos transcender. Do fim para o principio. Do pólen para o ouro liquido. Do pólen que nos dá a existência. Do mel que nos traz a existência de volta.

Abelha rainha, tu que habitas nos segredos da chuva, por favor, não desistas. Nem de ti. Nem de mim. Porque sem ti, deixarei de celebrar. Da perda à dadiva. E da saudade ao retorno. 

Porque sem ti, abelha rainha, esqueceremos o caminho de regresso a casa. À colmeia. Ao castelo lá no alto. Governo exemplar. Ascenção. Aroma quente. Onde o alecrim, o eucalipto e o castanheiro marcam encontro à tardinha.

Não desistas, abelha rainha. Porque os nossos sonhos só se deixam seguir ao som da tua voz. E ao aceno do teu gesto. 

Porque a nossa imaginação só germina no teu manto riscado. 

Porque a nossa criação só se fertiliza no ovo do mundo.

Porque o nosso corpo só se deleita na honra da tua presença. Em nós.


por Ana Sevinate